Mais pobres têm maior risco de morte por câncer, mesmo com menos diagnósticos, aponta estudo da Unicamp

  • 07/05/2026
(Foto: Reprodução)
Paciente faz exame de imagem no CancerThera, na Unicamp, em Campinas CancerThera/Divulgação Um estudo da Unicamp apontou que moradores de áreas mais vulneráveis de Campinas (SP) têm maior risco de morte por câncer, mesmo com menor incidência de casos nesses grupos. Segundo pesquisadores do Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), o acesso desigual aos serviços de saúde é um dos principais fatores para esse cenário. O trabalho foi publicado na revista científica internacional Cancer Epidemiology. "Os dados mostram que a mortalidade por câncer pode ser até três vezes maior entre os mais vulneráveis, evidenciando que pode haver acesso tardio ao diagnóstico e ao tratamento", afirma a epidemiologista Andrea von Zuben. Para os autores, os dados indicam subdiagnóstico: a população mais vulnerável não necessariamente adoece menos, mas tem menos acesso a exames e descobre a doença em estágios mais avançados. Entre os principais problemas identificados nesses grupos estão: Dependência quase exclusiva do SUS; Maior tempo de espera para exames e consultas; Diagnósticos tardios e menor chance de cura. Segundo Andrea von Zuben, o estudo que teve como base uma década de dados deixa claro que "a desigualdade em saúde não só persiste, como em alguns casos está aumentando, exigindo políticas públicas direcionadas e territorializadas." "O câncer não vai diminuir, o câncer só vai aumentar. Então, nós temos que nos preparar", afirma Carmino Antonio de Souza, pesquisador responsável pelo CancerThera. ➡️ Confira, abaixo, os principais pontos do estudo: 📊 Base de dados e metodologia 🧬 Diferenças entre tipos de câncer 👩‍⚕️ Qual o objetivo? Vídeos em alta no g1 📊 Base de dados e metodologia A pesquisa em Campinas analisou um período de 10 anos (2010 a 2019) e cruzou três bases oficiais: Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) de Campinas — auditado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS; Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM); Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS). Carmino de Souza, que é médico onco-hematologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, ressalta "a qualidade da base de dados" para a pesquisa. Uma lei municipal de 2017 tornou o câncer uma doença de notificação compulsória, o que ampliou o monitoramento de casos por parte da rede pública. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp “Campinas tem a primazia, e são muito poucos os lugares no Brasil de ter o que nós chamamos de registro de câncer de base populacional. Então todos os casos de câncer em Campinas são prospectivamente coletados", explica. Imagem aérea da região periférica de Campinas Reprodução/EPTV Para medir as desigualdades, os pesquisadores utilizaram o Índice Relativo de Desigualdade (RII), que permite comparar o risco de adoecimento e morte entre diferentes grupos socioeconômicos ao longo do tempo. O estudo ressalta que Campinas possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado muito alto (0,805) e uma taxa de urbanização de 98,28%, fatores que podem ser comparáveis aos de países de alta renda. No entanto, há uma clara desigualdade entre regiões ao mapear a incidência de casos e mortalidade por câncer na metrópole de 1,18 milhão de habitantes. Foi isso que permitiu aos pesquisadores compreenderem que o local onde a pessoa mora e a sua condição social interferem no acesso aos serviços de saúde e na chance de sobrevivência. "A cidade como um todo é poderosa, com um dos IDHs mais altos do Brasil, mas não é homogênea. Aí fica claro que as questões socioeconômicas são importantíssimas em relação à mortalidade", pondera Carmino. 🧬 Diferenças entre tipos de câncer Os pesquisadores mapearam as disparidades no diagnóstico e na letalidade dos tumores mais comuns entre os moradores de Campinas: próstata, estômago, mama, pulmão, cavidade oral, colo do útero e colorretal. "A gente optou pelos tumores mais prevalentes para dar uma ideia da influência dessa iniquidade socioeconômica e qual, digamos, a influência que isso tem na evolução, medido pelo desfecho pior que existe, que é a morte", explicou Carmino. O estudo identificou padrões distintos entre os diferentes tipos de câncer: ➡️ Próstata Embora a incidência de casos tenha caído em Campinas, de forma modesta, segundo avaliação dos pesquisadores, a desigualdade na mortalidade aumentou significativamente: entre 2015 e 2019 foi até 3 vezes maior entre os mais pobres na comparação com os cinco anos anteriores. O estudo elenca barreiras socioculturais entre as justificativas, como menor escolaridade, menor letramento em saúde e preconceitos relacionados ao exame de toque retal, que "contribuem para a busca tardia por atendimento, geralmente apenas quando os sintomas já são graves". Desigualdade na mortalidade cresceu ao longo do tempo Risco de morte até 3 vezes maior entre homens mais pobres (2015–2019) Fatores incluem acesso tardio ao diagnóstico e barreiras culturais Junto com o PSA, o toque retal é uma das etapas propostas para o rastreamento do câncer de próstata. GETTY IMAGES via BBC ➡️ Colo do útero Doença altamente prevenível através da vacina, quase desapareceu nas áreas mais ricas de Campinas, mas segue representativa nas regiões mais vulneráveis. O estudo apontou que a mortalidade é até 3,6 vezes maior entre os mais pobres. Além disso, homens em situação de maior vulnerabilidade dependem quase exclusivamente do SUS, onde enfrentam maiores tempos de espera para consultas especializadas, exames diagnósticos, biópsias e ressonâncias, e para o início do tratamento, segundo Von Zuben. Mortalidade até 3,6 vezes maior em regiões vulneráveis Doença praticamente desapareceu entre populações mais ricas ➡️ Cavidade oral Nos casos de câncer da cavidade oral, falhas na atenção básica em Campinas podem influenciar o resultado. "A proporção de equipes de saúde bucal no SUS é inferior ao ideal para o tamanho da população, com foco ainda muito centrado em procedimentos curativos, como restaurações e extrações, em detrimento de ações sistemáticas de rastreamento e busca ativa", alerta Andrea. Com isso, lesões simples na boca podem evoluir para casos fatais devido ao acesso tardio a biópsias e cirurgias de cabeça e pescoço. Risco de morte até 3,3 vezes maior entre os mais pobres Indício de falhas no rastreamento e atenção básica ➡️ Estômago Ao avaliar o câncer de estômago, os pesquisadores pontuaram que embora Campinas acompanhe a tendência nacional de queda geral na incidência e mortalidade entre homens, o estudo indicou que a doença ainda atinge mais a população pobre da cidade. "Os dados mostram que homens socialmente vulneráveis continuam registrando as maiores taxas de adoecimento e morte devido a barreiras no acesso ao diagnóstico precoce e à maior exposição a fatores de risco tais como fatores genéticos, excesso de sal, alimentos armazenados fora de geladeira e, finalmente, a bactéria Helicobacter Pylori, associada a diversos tipos de tumores gástricos", destaca o trabalho. Entre a população feminina, o câncer de estômago passou a atingir com mais força as mulheres de baixa renda a partir de 2015, e os pesquisadores indicam a necessidade de políticas públicas com foco em equidade para garantir que a queda geral não mascare o avanço da doença nas periferias. Maior impacto em populações vulneráveis Crescimento da incidência entre mulheres pobres no fim da série analisada ➡️ Mama O estudo aponta um abismo entre classes sociais no câncer de mama, que tem maior incidência em mulheres mais ricas, mas isso em consequência de fatores reprodutivos, como ter filhos mais tarde ou não ter filhos, além de maior acesso a exames preventivos. Mais casos entre mulheres de maior renda Melhor prognóstico devido ao diagnóstico precoce Mulheres pobres tendem a descobrir a doença em estágios avançados ➡️ Pulmão Ao analisarem os dados de câncer de pulmão, os pesquisadores identificaram um crescimento da incidência e mortalidade entre as mulheres, por conta do aumento do tabagismo nessa população. “Esse padrão é consistente com o que a literatura epidemiológica mundial documenta sobre a transição do tabagismo por gênero”, diz Von Zuben. Crescimento de casos e mortes entre mulheres Tendência associada ao aumento histórico do tabagismo feminino ➡️ Colorretal Segundo o estudo, no caso do câncer colorretal, ou câncer de intestino, há uma dificuldade na oferta de exames complexos, como colonoscopia, em larga escala pelo SUS. A doença está muito ligada ao consumo de ultraprocessados, à obesidade e ao sedentarismo, e pode, na avaliação dos autores, se tornar uma das maiores causas de morte evitável entre os mais pobres nos próximos anos. Mortalidade crescente entre homens Óbitos começam a se concentrar entre os mais pobres Sangue oculto nas fezes e colonoscopia: como identificar e prevenir o câncer colorretal Adobe Stock 👩‍⚕️ Qual o objetivo? Segundo os pesquisadores, o objetivo do estudo é subsidiar a gestão pública de saúde local e estadual para o enfrentamento das iniquidades. “A ideia é que isso sirva para que, principalmente a Secretaria Municipal de Saúde, trabalhe as questões de políticas públicas. Só com boas políticas públicas é que você vai conseguir rastrear, fazer diagnóstico precoce e, consequentemente, tratar precocemente", avalia Carmino. O pesquisador responsável pelo CancerThera defende que o estudo descortina a possibilidade de avanço em algumas áreas e esclarecimento em outras, como a conscientização da população e também o treinamento dos profissionais de saúde. “A questão do letramento no câncer é um grande problema da população, mas também dos profissionais de saúde. Hoje, os profissionais de saúde têm que pensar oncologicamente, porque é cada vez mais frequente", reforça Carmino. LEIA TAMBÉM IA da Unicamp mapeia músculo e gordura de pacientes com câncer em menos de 1 minuto e pode guiar tratamento Teranóstica: abordagem que rastreia e ataca câncer com radiação direto na célula é testada no Brasil IA da Unicamp mapeia músculo e gordura de pacientes com câncer em menos de 1 minuto VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/05/07/mais-pobres-tem-maior-risco-de-morte-por-cancer-mesmo-com-menos-diagnosticos-aponta-estudo-da-unicamp.ghtml


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