Oito novas mariposas são descobertas e recebem nomes de orixás; veja quais
06/05/2026
(Foto: Reprodução) Oito novas mariposas são descobertas e recebem nomes de Orixás; veja quais
Divulgação / Unicamp
Pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp identificaram oito novas espécies de mariposas que, até então, passavam despercebidas pela ciência.
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Os insetos pertencem a um grupo comum em áreas tropicais das Américas. Até pouco tempo, todos eram classificados como uma única espécie, a Eois russearia. No entanto, análises genéticas mostraram que se trata de um conjunto de espécies diferentes — o que os cientistas chamam de “espécies crípticas”.
A descoberta foi publicada na revista científica Scientific Reports.
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Além do avanço científico, o estudo chama atenção pelos nomes escolhidos. Em vez de seguir a tradição de homenagear pesquisadores europeus ou usar termos latinos, a equipe optou por valorizar a cultura afro-brasileira.
As novas espécies foram batizadas com nomes de Orixás, como Eois iemanja, E. oxumare e E. logunede.
“Por que não colocar, em bichos daqui, nomes que homenageiam a cultura brasileira e afro-brasileira?”, questiona Simeão Moraes, coordenador do Laboratório de Estudos de Mariposas (Lema) da Unicamp.
Mais comuns, mas menos estudadas
Simeão Moraes, coordenador do Laboratório de Estudos de Mariposas (Lema) da Unicamp
Divulgação / Unicamp
Apesar de serem mais numerosas que as borboletas, as mariposas ainda são pouco estudadas. Em uma coleta de dez insetos, por exemplo, nove costumam ser mariposas.
Segundo Moraes, isso tem relação com um viés na ciência e na conservação.
Ele usa o termo “fofofauna” para provocar uma reflexão: espécies consideradas bonitas ou carismáticas, como borboletas coloridas e mamíferos, costumam receber mais atenção.
Já muitas mariposas — especialmente as pequenas e de cores discretas — acabam ignoradas.
“Isso é um reflexo do nosso olhar. Para a natureza, não existe organismo ‘sem graça’. Todos têm funções importantes”, explica.
Mesmo as espécies menos chamativas desempenham papéis essenciais. Muitas atuam como polinizadoras noturnas, enquanto outras servem de alimento para morcegos, aves, répteis e outros animais.
Também há espécies que ajudam na reciclagem de matéria orgânica ou até no controle de plantas invasoras.
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Pistas sobre o passado dos biomas
Para identificar as novas espécies, os pesquisadores cruzaram dados genéticos com informações sobre as plantas utilizadas pelas lagartas.
O trabalho trouxe ainda pistas sobre a história ambiental do Brasil.
Uma das espécies, Eois ibeji, foi encontrada tanto na Amazônia quanto na Mata Atlântica. A distribuição reforça a hipótese de que os dois biomas já estiveram conectados no passado.
Mariposa da espécie Eois russearia
codylimber / iNaturalist
Homenagem e legado
Entre as novas espécies, uma recebeu um nome em homenagem à bióloga Mariana Stanton, pesquisadora do Lema que morreu em 2024.
A Eois stantonae reconhece a contribuição da cientista, cujo trabalho com lagartas foi fundamental para o estudo.
Corrida contra o tempo
Apesar do avanço, os cientistas afirmam que ainda há muito a descobrir.
Segundo Moraes, descrever novas espécies exige tempo, equipe especializada e recursos financeiros. Em muitos casos, é necessário coletar mais exemplares em áreas remotas e realizar análises detalhadas de DNA e estruturas microscópicas.
A escassez de taxonomistas — especialistas na identificação e descrição de espécies — também é um desafio global.
Os números mostram o tamanho da lacuna. Em uma família de mariposas, por exemplo, apenas cerca de 4,5% das espécies estimadas na região Neotropical foram formalmente descritas.
Em outro caso, estudos indicam que a diversidade real do gênero Eois pode ser até 176% maior do que o número atualmente conhecido.
Enquanto isso, o tempo corre contra a ciência.
“Muitas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas”, alerta o pesquisador, citando o avanço do desmatamento, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade.
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