Por que alguns morcegos evitam a lua cheia? Ciência explica
10/04/2026
(Foto: Reprodução) O que a lua cheia faz com os animais pode surpreender você
Quando a lua cheia surge no horizonte, a paisagem parece desacelerar. A claridade prateada cobre rios, florestas e cidades, criando a sensação de silêncio. Mas, para a ciência, o luar está longe de ser apenas cenário. Ele pode alterar comportamentos, ajustar estratégias de caça e influenciar rituais reprodutivos em diversas espécies.
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A influência não tem nada de mística — é biológica.
Para entender como isso acontece, o Terra da Gente conversou com o biólogo Roberto Leonan M. Novaes, doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela UFRJ e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Especialista em morcegos, ele explica que a relação entre animais e fases lunares é complexa — e ainda não totalmente compreendida.
Morcego-Pescador-Grande (Noctilio leporinus)
tecuan_jc / iNaturalist
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A chamada “fobia lunar”
Entre morcegos, existe um fenômeno conhecido como “fobia lunar”. O termo descreve a redução da atividade de algumas espécies em noites muito iluminadas.
“Existe uma influência da luminosidade da lua sobre morcegos, sim, que por vezes é chamado de ‘fobia lunar’, indicando que os morcegos saem menos de seus abrigos durante fases lunares mais iluminadas, como a lua cheia”, explica Novaes.
Em noites claras, algumas espécies evitam áreas abertas e preferem voar sob a cobertura de florestas densas, onde ficam menos expostas a predadores como corujas.
Mas o pesquisador faz questão de ponderar:
“Esse é um fenômeno pouco compreendido ainda. Não é um fenômeno absoluto pra todos os morcegos. Algumas espécies podem evitar, mas outras podem se beneficiar”.
Foto da lua cheia de julho de 2023
Arquivo pessoal/Fabiane Lopes
Há estudos mostrando que certos morcegos predadores de insetos e pequenos vertebrados podem até aumentar sua atividade durante a lua cheia.
Ou seja, o efeito da luz lunar varia de espécie para espécie.
E apesar dessas alterações comportamentais, Novaes ressalta que não há evidências de impacto ecológico significativo.
“Não há qualquer evidência que mostre que isso impacta a dinâmica ou saúde dos ecossistemas. Os ciclos lunares são curtos e dinâmicos […] a curta duração não afeta os ciclos populacionais de suas presas ou das plantas”.
A lua não “desliga” o sonar
Morcego da espécie Pteropus niger
tmcroydon2002 / iNaturalist
O imaginário popular ainda associa morcegos à cegueira. Mas isso está longe da realidade.
“Morcegos não são cegos. A maior parte das espécies possuem olhos grandes e enxerga muito bem, com capacidade até de distinguir cores, mesmo na escuridão”.
Todos os morcegos das Américas utilizam a ecolocalização — um sistema sensorial baseado em sons de alta frequência — tanto para orientação quanto para encontrar alimento. A pergunta que intriga pesquisadores é se a lua interfere nesse “sonar”.
Segundo Novaes, não há evidências de prejuízo.
“Não há nenhuma evidência que indique que a fase da lua vá interferir de forma importante no uso da ecolocalização”.
Mas pode haver uma adaptação estratégica.
“É bem plausível que em noites mais claras os morcegos usem mais a visão, tendo maior eficiência nessas condições”.
Em espécies frugívoras, por exemplo, o uso da ecolocalização pode se tornar menos intenso quando a visão é suficiente para localizar frutos sob a claridade lunar.
E os morcegos vampiros?
Espécie de morcego: Pteropus vampyrus
danospv / iNaturalist
Entre os morcegos hematófagos — que se alimentam de sangue — a lua cheia pode representar maior exposição.
“É fato que morcegos hematófagos têm mais ‘fobia lunar’ do que espécies de outros hábitos”, afirma o pesquisador.
Como esses animais muitas vezes se aproximam caminhando pelo solo ou por galhos, ficam mais vulneráveis à detecção por presas e predadores.
Ainda assim, noites de lua cheia não significam fome.
“Esses morcegos buscam estratégias para evitar predadores e buscar seu alimento, como sair no momento da noite em que a lua esteja mais escondida, explorar ambientes mais fechados e escuros, e procurar por locais mais conhecidos onde as presas dormem”.
A adaptação é essencial. “Eles precisam ingerir sangue diariamente para se manterem vivos e saudáveis”.
A lua como sinal comportamental
Morcego da espécie Megaderma spasma
pfaucher / iNaturalist
A influência lunar vai além dos morcegos.
“A iluminação lunar exerce algum efeito nos animais, principalmente comportamental”, explica Novaes.
Estudos mostram que algumas espécies de sapos aumentam o canto e a atividade reprodutiva em noites mais iluminadas.
Quanto ao mecanismo hormonal, porém, a ciência ainda é cautelosa.
“Há poucas evidências de que exista uma alteração realmente importante. O que se sabe é que a iluminação lunar pode afetar a produção de melatonina, que é sensível à luz, e que tem papel na regulação de alguns hormônios reprodutivos”.
Trata-se, portanto, de uma possível influência indireta — ainda em investigação.
Em ambientes marinhos, a relação é ainda mais evidente. Muitos corais sincronizam a liberação de gametas com os ciclos lunares, aumentando o sucesso reprodutivo. O mesmo ocorre com alguns peixes, anelídeos e tartarugas-verdes.
“Ou seja, não é um fenômeno raro, mas relativamente comum na natureza”.
O problema das “luas artificiais”
Se a lua natural influencia comportamentos de forma dinâmica e adaptativa, a luz artificial tem provocado desequilíbrios mais profundos.
“Com absoluta certeza a iluminação artificial urbana altera o comportamento dos animais e cria problemas para a vida desses animais”.
Há registros de alterações no ciclo circadiano — animais diurnos passando a ter atividade noturna devido à iluminação urbana.
Um dos exemplos mais conhecidos envolve tartarugas marinhas. Ao nascerem, os filhotes usam o reflexo da lua e das estrelas no mar para encontrar o caminho até a água.
Lua cheia registrada por Izabela Almeida do Clube Centauri em Itapetininga neste sábado (12)
Arquivo Pessoal/Izabela Almeida
Mas esse sistema pode falhar.
“Podem ser atraídas pelas luzes da cidade e irem para o lado errado, sendo expostas a predadores, atropelamentos e outros riscos”.
Morcegos, corujas e gambás também têm seus comportamentos alterados sob iluminação artificial intensa.
Apesar da influência lunar, o pesquisador reforça que os ciclos naturais da lua são curtos e não provocam grandes alterações estruturais nos ecossistemas.
“É um evento complexo, dinâmico e com duração curta o suficiente para não gerar grandes mudanças na natureza”.
A lua, portanto, não rege a natureza como um maestro absoluto. Ela funciona mais como um sinal — um estímulo ambiental que algumas espécies aproveitam, outras evitam e muitas simplesmente incorporam à sua rotina evolutiva.
Sob o luar, a floresta não para. Ela apenas ajusta o ritmo.
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