Veneno de animal amazônico pode virar arma contra superbactérias
26/03/2026
(Foto: Reprodução) Butantan descreve veneno com poder antibiótico em anfíbio
jeanpaulboerekamps / iNaturalist
Os anfíbios possuem um ciclo de vida que depende diretamente da água, um ambiente raramente puro e repleto de fungos e bactérias. Para sobreviver a essas condições sem desenvolver infecções na pele, a seleção natural dotou esses animais de peptídeos — fragmentos de proteína — que funcionam como potentes antibióticos naturais.
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O pesquisador Daniel Pimenta, do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEV) do Instituto Butantan, explica que a pele é o órgão mais vital dos sapos, atuando na respiração, troca de gases e hidratação. Por ser muito fina e precisar de muco constante para se manter úmida, ela se torna um ambiente propício para microrganismos.
"Ao mesmo tempo em que precisam se manter úmidos, eles [os sapos] têm que se proteger secretando os antibióticos", afirma.
Mecanismo de defesa
Todo o corpo do sapo é recoberto por glândulas: algumas mantêm a umidade, enquanto outras produzem o "veneno", que contém as moléculas de defesa. O sapo-cururu amazônico (Rhaebo guttatus), inclusive, consegue lançar essa substância a partir de glândulas localizadas atrás dos olhos quando se sente ameaçado.
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Um estudo publicado na revista internacional Toxicon descreveu as proteínas presentes nesse veneno. A pesquisa foi conduzida pelo Butantan em parceria com a Escola Paulista de Medicina e a Fiocruz Rondônia.
Alternativa às 'superbactérias'
Exemplar da espécie Rhaebo guttatus
jeffreyniem / iNaturalist
A descrição dessas proteínas revela uma alternativa promissora às penicilinas e tetraciclinas tradicionais, contra as quais muitas bactérias hospitalares já desenvolveram resistência.
"Os peptídeos antibióticos têm outra estratégia evolutiva de matar bactérias. Então, em teoria, seriam menos suscetíveis a induzir resistência", relata Daniel Pimenta.
Uma surpresa para os pesquisadores foi encontrar proteínas ligadas a processos de regeneração de células nervosas na secreção do animal.
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Próximos passos
O LEEV já estudou a história natural e o comportamento do sapo-cururu amazônico para entender a função dessas moléculas em sua pele. Com a descrição concluída, o próximo passo é a síntese em laboratório para a realização de testes.
Para que o veneno se transforme em um medicamento para uso humano, será necessário o trabalho conjunto com especialistas em microbiologia e farmacologia.
"Estamos abertos a colaborar. Com essa publicação, encerramos esta parte do trabalho, que agora está disponível para novas parcerias", conclui Pimenta.
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