Carros elétricos dão mais enjoo? Física e biologia explicam fenômeno que pode cair na Unicamp
02/10/2026
(Foto: Reprodução) Um carro elétrico é carregado em estação de recarga
Pexels
Por que algumas pessoas sentem mais enjoo ao andar de carro elétrico? A resposta pode estar na integração entre a física e a biologia, e pode aparecer em questões do Vestibular 2027 da Unicamp. A primeira fase está marcada para 18 de outubro.
Conceitos como torque instantâneo, Lei da Inércia, Movimento Uniformemente Variado (MUV) e a fisiologia do sistema vestibular explicam como o corpo humano reage às acelerações bruscas desses veículos e por que elas causam desconforto (entenda abaixo).
🚗 Entenda: o fenômeno não é exclusivo dos veículos elétricos e está relacionado à maneira como o cérebro processa as informações sobre o movimento, recebidas por diferentes sistemas do corpo.
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O g1 ouviu professores e especialistas para entender os princípios científicos por trás do fenômeno e mostrar como a relação entre mobilidade elétrica e o bem-estar pode ser abordada nas provas.
📚 Esta reportagem compõe o projeto Vestibulou, uma iniciativa do g1 Campinas para divulgar informações relacionadas aos principais vestibulares e ajudar na preparação dos estudantes.
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O que está por trás do enjoo no carro elétrico?
Embora o efeito não seja uma exclusividade dos carros elétricos, uma das explicações para o mal-estar está na capacidade de aceleração e envolve o princípio da inércia. "O motor elétrico consegue entregar força muito mais rápido para o eixo do motor. Ele tem um torque maior do que o carro a combustão, um torque instantâneo", explica o professor de física da Oficina do Estudante, Rodrigo Araújo.
"Dependendo de como a pessoa dirige, essa aceleração mais rápida e abrupta pode causar os efeitos. Nosso corpo tem a tendência de permanecer no estado de movimento em que ele estiver e, quando você muda o estado do movimento do corpo, é quando há maior chance de sentir o enjoo. Aqui, temos a Lei da Inércia atuando e o corpo sendo afetado por ela".
Outro conceito que pode aparecer na prova de física da Unicamp e que está relacionado à diferença de aceleração entre carros a combustão e elétricos é o Movimento Uniformemente Variado (MUV).
Além da aceleração, os sistemas de frenagem e recarga dos carros elétricos também podem render questões no vestibular. Para o professor do Instituto de Física Gleb Wataghin, Leandro Tessler, a frenagem regenerativa é um exemplo de aplicação dos conceitos de transformação e conservação de energia.
"A frenagem regenerativa, presente em carros elétricos, transforma a energia cinética em energia elétrica, capaz de recarregar a bateria. Então, em uma viagem à praia, por exemplo, em que há descida de serra e mais situações de frenagem, é possível constatar ganho de autonomia ao chegar ao destino. Essa situação pode ser um tema de prova", destaca Tessler.
A biologia também explica o enjoo
Na biologia, a sensação de enjoo está relacionada ao sistema vestibular – popularmente chamado de labirinto. Ele é responsável por:
detectar os movimentos de rotação;
perceber acelerações lineares;
identificar a ação da gravidade;
ajudar o cérebro a manter o equilíbrio;
estabilizar a visão.
De acordo com a médica otorrinolaringologista e coordenadora do Setor de Otoneurologia da Disciplina de Otorrinolaringologia Cabeça e Pescoço da Unicamp, Raquel Mezzalira, náusea, tontura, suor frio e até vontade de vomitar durante uma viagem de carro são sintomas conhecidos como cinetose, ou enjoo de movimento.
"Em algumas pessoas, esses sintomas podem aparecer ou se intensificar em carros elétricos. Mas a explicação não é simplesmente que 'carro elétrico dá mais enjoo'. O que está por trás do problema é a maneira como o cérebro interpreta o movimento. Quando um carro acelera ou freia, o labirinto registra a mudança de movimento".
"Ao mesmo tempo, a visão, os músculos e as articulações também enviam informações ao cérebro. O cérebro precisa integrar todos esses sinais para construir uma percepção coerente de onde estamos e de como estamos nos movimentando. O enjoo aparece com maior facilidade quando essas informações não são compatíveis".
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A médica detalha que algumas características dos veículos elétricos podem modificar as informações que chegam ao cérebro. “A primeira é a aceleração mais imediata que determinados carros elétricos conseguem produzir. Como o motor elétrico entrega torque rapidamente, o passageiro pode experimentar mudanças de velocidade bastante rápidas. E essas acelerações são percebidas pelo labirinto. Outra característica é o baixo nível de ruído e vibração".
"Em um carro convencional, o som do motor e as vibrações do veículo funcionam como pistas adicionais sobre aceleração e desaceleração. O cérebro aprende a associar essas pistas ao movimento. No carro elétrico, parte dessas informações desaparece. Isso não significa que o silêncio, sozinho, provoque enjoo, mas a alteração desse conjunto de pistas sensoriais pode contribuir para o conflito em pessoas mais suscetíveis", completa.
O que estudar sobre o tema
A partir dos conceitos abordados na reportagem, os estudantes podem revisar os seguintes conteúdos de física e biologia:
⚙️ Física
1. Torque e aceleração dos carros elétricos
O que é torque e qual sua relação com a força de rotação.
Diferenças entre motores elétricos e motores a combustão na entrega de torque.
Relação entre torque, força e aceleração.
Como a aceleração influencia o movimento dos passageiros dentro de um veículo.
2. Lei da Inércia (1ª Lei de Newton)
O princípio da inércia e a tendência dos corpos de manterem seu estado de repouso ou movimento retilíneo uniforme.
Diferença entre repouso e movimento em relação a um referencial.
O que acontece com o corpo de um passageiro durante acelerações e frenagens bruscas.
Aplicações das leis de Newton em situações cotidianas, como viagens de carro.
3. Movimento Uniformemente Variado (MUV)
Conceito de aceleração constante.
Diferença entre movimento uniforme (MU) e movimento uniformemente variado (MUV).
Aceleração e desaceleração: como a velocidade muda ao longo do tempo.
Equações do MUV e interpretação de gráficos de posição, velocidade e aceleração em função do tempo.
Aplicação dos conceitos em situações de aceleração e frenagem de veículos.
4. Energia cinética e frenagem regenerativa
Conceito de energia cinética e sua relação com a massa e a velocidade de um corpo.
Princípio da conservação da energia.
Transformações entre energia cinética, elétrica e outras formas de energia.
Funcionamento da frenagem regenerativa nos carros elétricos.
Diferença entre frenagem convencional e regenerativa.
Relação entre descidas, frenagens e recuperação de energia para recarga da bateria.
🧬 Biologia
5. Sistema vestibular (labirinto)
Anatomia básica do sistema vestibular e suas estruturas.
Função dos canais semicirculares na percepção dos movimentos de rotação.
Função do utrículo e do sáculo na percepção de acelerações lineares e da gravidade.
Participação do sistema vestibular na manutenção do equilíbrio corporal.
Relação entre o sistema vestibular e a estabilização da visão durante os movimentos.
6. Sistema nervoso e integração sensorial
Como o cérebro recebe e interpreta informações sensoriais.
Participação da visão, do sistema vestibular, dos músculos e das articulações na percepção do movimento.
Integração das informações sensoriais para a manutenção do equilíbrio.
Conflito sensorial: como informações divergentes podem provocar desconforto e alterações na percepção do movimento.
7. Cinetose (enjoo de movimento)
O que é cinetose e quais são seus principais sintomas: náusea, tontura, suor frio e vômitos.
Relação entre o sistema vestibular e o surgimento do enjoo.
Como acelerações, desacelerações e movimentos repetitivos podem desencadear os sintomas.
Diferenças individuais na sensibilidade ao movimento.
Relação entre estímulos visuais, vestibulares e proprioceptivos no desenvolvimento da cinetose.
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